‘Sou um homem de rituais. Fui educado com a noção de que as pequenas coisas são importantes.’

 

Uma revista holandesa nomeou-o Mr. Perfect e a Vanity Fair americana apontou-o como a versão holandesa de James Bond. Tem a fasquia bastante alta. Até que ponto é perfeito na vida real?

Bastante perfeito, já que me faz essa pergunta (dá uma gargalhada). Se fizer a mesma pergunta à minha mulher, receio que a resposta será bastante diferente. É, de facto, muito lisonjeiro, mas ninguém é perfeito. Quando muito, podiam chamar-me Sr. Perfecionista. Quando constrói uma marca global, como a Rituals, tem de procurar a perfeição: de todas as formas, todos os dias. E tem de o fazer com paixão e uma dose saudável de obsessão. Pelo menos, é essa a minha forma de ver as coisas. Na Rituals, adoramos criar coisas bonitas que ajudam a transformar as rotinas diárias em rituais especiais. Mas na verdade, tudo tem de ter um sentido: os perfumes, os produtos, os designs, as lojas, o serviço e a experiência. Se conseguirmos atingir tudo isso e manter esse nível, a nossa missão terá sido bem-sucedida.

A aparência é muito importante para si?

A aparência é importante para mim, mas não é tudo. Gosto de me vestir bem e de ter uma boa aparência, claro. E quando visto um fato novo, isso dá-me um pouco mais de confiança. Mas a aparência vai muito mais além do aspeto físico. É aquilo que irradiamos. As pessoas otimistas e criativas atraem-me porque literalmente me dão energia. No final do dia, a única coisa que importa é o que temos no nosso interior. Mas não faz mal nenhum criar uma boa impressão com a nossa aparência.

Onde é que encontra inspiração para alimentar a sua criatividade?

Encontro inspiração viajando e explorando outras culturas, conhecendo pessoas novas e visitando lojas em todos os cantos do mundo. Sou provavelmente dos poucos homens que realmente gostam de ir às compras. O que, de facto, é uma parte importante do meu trabalho: reconhecer aquilo de que as pessoas gostam e o que está na moda. Para continuar a triunfar, tenho de perceber, melhor do que ninguém, o que é que os nossos clientes querem. E a melhor parte do meu trabalho é que sou capaz de perceber isso com uma equipa de pessoas com muito talento.

Por exemplo, lançamos um novo ritual como o Laughing Buddha.

Por onde é que se começa e como é que se chega ao resultado final?

A maior parte dos nossos produtos são inspirados em rituais orientais ancestrais. Quando descobrimos um novo ritual que achamos que vale a pena partilhar com as pessoas, começamos a pesquisar cada aspeto exaustivamente. Que ingredientes utilizavam e porquê? Como funcionavam as suas rotinas? E por aí fora. Depois, entregamos esses ingredientes aos nossos perfumistas. Juntos, traduzimos isso numa moderna linha de produtos de luxo.

Mas os tempos modernos também nos motivam. Por exemplo, apercebemo-nos de que as pessoas investem muito tempo e dinheiro a escolher e conceber uma nova cozinha e que depois compram no supermercado um gel de mãos que não é lá muito bonito e que o guardam precipitadamente no armário quando recebem visitas. Achámos que podíamos melhorar esse aspeto e foi o que fizemos. Concebemos uma linha elegante de produtos que não ficam deslocadas na bancada da cozinha.

Qual é o seu grau de envolvimento no desenvolvimento de novos produtos e rituais?

Temos uma fantástica equipa a trabalhar no nosso departamento de inovação e estou muito envolvido porque é um dos aspetos de que mais gosto no meu trabalho, ajudar a criar e a conceber produtos e lojas. Trabalho com muita dedicação para a Rituals e para todas as pessoas que acreditam nela, tentando fazer a diferença com produtos e experiências especiais. Sei que não vamos transformar o mundo, mas gosto de pensar que damos o nosso contributo fazendo a diferença na indústria.

Por falar em fazer a diferença, a sustentabilidade é um fator essencial para muitas empresas da indústria. Como é que a Rituals está a responder a este tema?

A sustentabilidade é um aspeto muito importante para nós e fizemos alguns avanços significativos nesta área. Queremos verdadeiramente encontrar novas formas de reduzir o nosso impacto no planeta, razão pela qual pedimos ao LCA Centre para levar a cabo um estudo de Avaliação do Ciclo de Vida (LCA) das embalagens dos nossos produtos. Desta forma, sabemos o impacto ambiental da embalagem de cada artigo. Transformamos essa informação em ação, fazendo alterações que vão ao encontro da sustentabilidade.

Por exemplo, oferecemos recargas para os nossos cremes de corpo e de rosto e também para os nossos géis de mãos. Com o nosso sistema de recarga eco-chic, podemos poupar até 70% de CO2, 65% de energia e utilizar 45% menos água. Para reduzir a nossa pegada de carbono, produzimos os nossos produtos o mais próximo possível; atualmente, 98% dos nossos produtos acabados são produzidos na Europa. Para além disso, utilizamos apenas papel certificado pela FSC para as embalagens exteriores (quando a funcionalidade nos permite, optamos por papel reciclado) e estamos atualmente a esforçar-nos por atingir o objetivo de que 100% das nossas embalagens sejam recicláveis até 2023.

Portanto, como vê, demos bastantes passos no caminho da sustentabilidade e aprendemos no nosso percurso a ter hábitos mais ecológicos cada dia.

Sendo a força criativa por detrás da marca, também deve ter alguns rituais próprios. Pode dizer-nos alguns?

Sou um homem de rituais. Fui educado com a noção de que as pequenas coisas são importantes. Portanto, tenho rituais que a maior parte das pessoas têm: fazer a barba, uma chávena de Earl Grey de manhã, um banho relaxante de vez em quando e bebo sempre um copo de vinho branco quando chego a casa depois do trabalho. A um nível mais espiritual, quando viajamos para o estrangeiro com a família, tentamos sempre encontrar uma igreja antiga para acender uma vela por alguém. É um pequeno momento de reflexão: agradecermos aquilo que temos e compreendemos o que temos de dar.

‘Tentamos sempre encontrar uma igreja antiga para acender uma vela por alguém.’

A filosofia da Rituals centra-se no relaxamento e em abrandar para desfrutar das pequenas coisas da vida. Realmente põe em prática isto que defende?

Tenho de admitir que acertou em cheio. Neste momento, estamos a trabalhar para expandir a marca a novos territórios, o que significa novos países e, possivelmente, até novos continentes. Pode imaginar que agora tenho uma agenda sobrecarregada que poderíamos até comparar a um comboio de alta velocidade a andar na sua capacidade máxima. Abrandar é praticamente impossível. Portanto, sim, há sempre coisas a melhorar. E não, ainda não consegui dominar a arte de pôr em prática aquilo que defendo. Mas aprendo e esforço-me todos os dias a equilibrar melhor as coisas.

As fragrâncias exclusivas são um fator de sucesso crucial para a marca. Quão importante é o olfato para si?

O olfato é muito importante para mim. Não podia ser de outra forma, é um sentido fantástico. Pode transportar-nos para lugares e épocas da nossa infância ou ajudar-nos a lembrar e reviver momentos especiais das nossas vidas, tal como acontece com a música, que também tem muita importância para mim. E sejamos honestos, todos tentamos evitar sítios com cheiros estranhos. Por outro lado, sentimo-nos muito confortáveis quando sentimos uma fragrância agradável. Pessoalmente, nunca saio de casa sem pôr um pouco de perfume e vou alternando as minhas três fragrâncias favoritas, dependendo da ocasião e do meu estado de espírito. Vão de fragrâncias desportivas ou apimentadas, até uma mais clássica, semelhante à colónia.

Para si, qual é a melhor forma de relaxar?

Relaxo com um bom copo de vinho junto à lareira na companhia de amigos, a ver um bom filme num ecrã grande no cinema e, claro, na nossa casa à beira-mar, em Knokke. A viagem é de apenas uma hora e meia de carro, mas sinto-me como se estivesse num mundo completamente diferente.

Todos os produtos Rituals centram-se em rotinas orientais ancestrais e autênticas. O que o levou a decidir basear a sua marca nas raízes de práticas e rituais orientais?

As pessoas de todo o mundo vivem a vida a um ritmo acelerado, ligam o piloto automático e eu decidi que queria mudar isso, transformando rotinas habituais em momentos com mais significado. Na prática, isso significava reinventar produtos normais, como geles de duche e espumas de barbear em algo realmente especial. Trabalhei na indústria durante mais de 15 anos e abrir a minha empresa era a minha oportunidade de mudar as regras e de fazer as coisas de forma diferente. Em vez de avançar rapidamente, decidi que seria melhor fazer pesquisas, olhar à minha volta e dar um passo atrás para me inspirar. Viajei e apercebi-me de que no mundo ocidental subestimamos a importância de práticas antigas; dedicamo-nos a inovar e nunca olhamos para trás. Os rituais orientais ancestrais são exatamente o oposto e percebi que tinha encontrado o meu nicho.

Qual é o seu destino de férias favorito?

Tentamos visitar muitos lugares do mundo com os nossos filhos e cada viagem é diferente e especial à sua maneira, portanto na verdade não posso escolher um único destino. As nossas melhores memórias de férias vão desde escalar e caminhar pela montanha até viajar pela Tailândia e dormir em pequenas casas nas palmeiras junto a um lago.

Qual é a sua cidade favorita?

Gosto muito de cidades dinâmicas, como Tóquio, Banguecoque, Paris e Barcelona. Mas Nova York acaba sempre por ser a escolhida. A primeira vez que fui a NY foi há 15 anos e foi um momento decisivo para começar a minha aventura da Rituals. Caminhei durante dias, vi montras de lojas durante horas, absorvi tudo e voltei com imensa energia e uma decisão tomada. Tinha de tentar. Abrir a nossa loja Rituals no Soho, no passado novembro, foi uma enorme conquista a nível pessoal. Lembro-me de olhar para a montra da Fresh, há 15 anos, com um enorme fascínio e admiração por esta marca de cosméticos. E agora nós estamos ao lado. Sim, para mim é algo incrível.

Há alguma coisa na sua lista de coisas a fazer antes de morrer?

Acho que comecei a viver este conceito de “coisas a fazer antes de morrer” antes de se transformar numa moda. Desde há 25 que estabeleço um objetivo por ano, para viver pelo menos uma experiência única. Até agora, já corri maratonas, fiz paraquedismo, bungee jumping e fui caminhar na natureza num sítio remoto, só referindo algumas delas. Não sei se alguma vez as farei, mas na lista ainda estão: aprender a fazer kite-surf antes de ficar demasiado velho, fazer heli-ski no Canadá e ter aulas na escola de ténis de Nick Bolletieri para praticar a minha esquerda com duas mãos, 20 anos mais tarde.

Os 3 melhores livros.

Já não leio muitos livros, mas estas leituras recentes foram muito inspiradoras: Steve Jobs, a biografia, Howard Schultz e Mr. Amazon, de Brad Stone.

O melhor momento da minha vida…

foi casar-me com a minha mulher, Colette, e começarmos uma família juntos.

A sua citação favorita

“Se podes sonhá-lo, podes fazê-lo.”, de Walt Disney. Acho que é a nossa capacidade de sonhar e a nossa determinação de perseguir os nossos sonhos que fazem toda a diferença para um empresário criativo. Tenho várias citações que são importantes para mim bordadas na minha camisa, num sítio escondido. Chame-lhe um ritual, se quiser. Comecei a fazer isto no ano 2000, para me motivar em épocas difíceis, e continuo a fazê-lo até hoje.

‘Se podes sonhá-lo, podes fazê-lo!’

Não gosto de pessoas que são…

Invejosas, críticas, negativas e pessimistas.

Quais são as suas características mais positivas? Que traços pessoais considera negativos?

Diria que o facto de ser um sonhador otimista é bastante positivo. Também sou criativo e lutador. No lado negativo, posso ser impaciente e imparável. E um bocadinho preguiçoso, às vezes.

Diga 3 pessoas que admira muito e porquê

A minha mulher, Colette, a minha mãe e pessoas inspiradoras, como Steve Jobs e Howard Schultz. Admiro pessoas que têm sonhos e uma visão, que se deixam levar pela inspiração mas que também estão focadas em conseguir perfeição em cada detalhe.

Diga um evento que tenha mudado a sua vida

Tinha 9 anos quando o meu pai perdeu a vida tragicamente num acidente de automóvel. Isso teve um impacto enorme em mim. Apercebi-me muito jovem de que a vida é muito valiosa e que pode acabar de repente, em qualquer momento. Portanto devemo-nos a nós próprios vivê-la ao máximo e fazê-lo quando ainda podemos. E devemo-nos a nós próprios desfrutar das pequenas coisas, porque um dia podemos olhar para trás e aperceber-nos de que afinal eram grandes. Desde então, não considero nada como garantido e vivo mais no presente. Toda a minha experiência é um fator importante para o meu trabalho na Rituals.

Acredita na reencarnação?

Não, não acredito. Acredito em aproveitar a vida ao máximo e em deixar o planeta um pouco melhor do que estava quando chegámos. Toda a gente pode contribuir para isso, seja montando um negócio ou cuidando dos outros.

Qual é a sua definição de sucesso?

Para mim, a definição de sucesso é ser feliz, viver uma vida plena e fazer algo positivo com os talentos que temos. Porque toda a gente tem um talento para alguma coisa.

O seu produto Rituals favorito. E só pode escolher um…

Tem de ser a espuma de duche Fujiyama (agora conhecida como Happy Buddha). Este foi o produto que começou tudo e que nos permitiu continuar nos primeiros anos, quando as coisas não corriam muito bem. A espuma de duche representa a nossa filosofia exclusiva. Foi uma reinvenção do gel de duche habitual, transformado numa espuma de duche inovadora, com uma fragrância viciante.

Idealmente, onde é que a Rituals estará dentro de 5 e 10 anos?

Construir uma marca às vezes demora uma vida. Ainda temos um longo caminho pela frente e muitas coisas para aprender num mundo que muda a um ritmo assustadoramente rápido. Espero que dentro de 25 anos o mundo inteiro conheça a nossa magnífica marca. E espero que nos possa encontrar em cada centro comercial e grandes armazéns, desde o Extremo Oriente até à América do Sul.

This post is also available in: Inglês Holandês Espanhol Dinamarquês Francês Alemão Norueguês Sueco

Leave a Comment

Error: Please check your entries!